Do dia que recebi meu laudo

Faço graduação em Psicologia e sempre me senti frustrada por – como pessoa com TDAH e Altas Habilidades – não ser acolhida pelos professores e pelas professoras do curso. Sempre achei que, como os psis (psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos) são profissionais que lidam com essa demanda, eu deveria me sentir mais compreendida no meu curso, mas não era minha realidade. Só não sei se isso se dava por descrédito da minha palavra ou por despreparo deles mesmo, sabe?

Desde criança eu sabia do meu TDAH, mas não tinha laudo médico. Mas aí quando comecei a pagar uma cadeira de Psicologia e Educação Inclusiva com uma professora da área recém-chegada no departamento, vi algo diferente ocorrer. Ela entendia o que eu tinha e me incentivou a buscar meu lado para, com ele, recorrer aos meus direitos de acessibilidade. Confesso que fiquei com muito medo do que isso traria pra mim, pois não sabia como seria a reação do departamento de Psicologia.

Marquei a consulta com a psiquiatra que me acompanhava e já cheguei lá extremamente sensibilizada com o acúmulo de tantas lutas por causa do TDAH. Ainda mais porque eu ali estava retomando meu tratamento, que havia estacionado por questões financeiras e do qual vi que sua ausência me fazia uma falta enorme.  Antes de ir para a consulta havia conversado com minha mãe sobre quão difícil estava sendo me manter sem as medicações, e resolvemos fazer alguns sacrifícios para conseguir prosseguir com os tratamentos. Comecei a lembrar de tudo que ouvi e vivi dentro da minha graduação e do tanto que sofri por precisar de uma ajuda que eu não tinha. Expliquei minha situação à psiquiatra com lágrimas nos olhos, ela me deu o laudo, afirmando que não havia dúvidas do meu diagnóstico e desejando que eu conseguisse esse apoio em acessibilidade. Contive as lágrimas na frente da doutora, mas os olhos brilhando e o sorrisão de quem recebia um documento que poderia trazer o que iria resolver muito de sua vida não negava a minha emoção.

Ao sair do consultório, as lágrimas começaram a rolar e fui até a universidade – cerca de 1h de ônibus – chorando copiosamente. Eu soluçava de chorar… tu não tem noção da minha emoção! Me questionei sobre os motivos que levam um papel assinado por outrem serem mais válidos que meus depoimentos reais de dificuldades. Sabia que só com ele iria abrir as portas que eu precisava pra ter uma boa qualidade de vida.

A primeira professora que encontrei ao chegar na federal foi a de Psicologia e Educação Inclusiva. Ela viu minha cara de choro, expliquei a ela e vi que a felicidade que compartilhei a atingiu também. Mais uma vez ela me incentivou a iniciar essa jornada em busca dos meus direitos de acessibilidade e tomei coragem para isso.

Ao chegar em casa, minha mãe pegou o laudo, leu e disse: “é… minha filha tem um transtorno mental”. Sei que não é fácil para ela absorver a ideia, e esse é um dos desafios que terei que superar. Ali eu sabia que novidades grandes poderia estar por vir e, com elas, grandes lutas. Amparada por uma realidade concreta de dificuldades e por uma legislação inclusiva, comecei a correr atrás.

No meu próximo post conto sobre essa jornada e no que está dando. O que tenho a dizer agora é que estou incrivelmente feliz.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s