“Desisti de assistir a aula!” | Depoimento, Aline Cavalcante

Queria conseguir entender. Juro!

Me distraí e perdi o meu ônibus pra faculdade. Não tomei minha Ritalina… Acabou e não tive como comprar mais. Chego uns 10 minutos atrasada e só me resta a cadeira ao lado da porta. Sento e tento prestar atenção… e como tento!
Meus colegas ao lado conversam enquanto o professor fala, e isso rouba toda minha atenção. Começa então uma briga no meu cérebro resumida em: tentar entender o que o professor está dizendo enquanto que o som das bocas inquietas e infreáveis dos meus colegas tenta me impedir. Não dá! Começo a ficar ansiosa (mais do que o normal), a perna começa a balançar, o coração começa a palpitar forte e não resisto a dar uma fugidinha da sala. Saio, vou ao banheiro, lavo o rosto, bebo água… e me arrisco a voltar pra sala.
A conversa paralela continua em alto e bom som, disputando a minha atenção com o professor enquanto o entra e sai de pessoas da sala pela porta bem ao meu lado dificulta muito. Pedi ao professor pra explicar o trabalho que deve ser entregue na próxima aula e ele explica, os colegas conversam, peço silêncio, não adianta e eu continuo sem entender nada. A colega lá do outro lado da sala teve uma ótima ideia pro trabalho e compartilha com a sala, mas o barulho continua e eu canso de tentar entender. Umas duas ou três saídas de sala e eu desisto de compreender a aula. Me sinto mentalmente cansada e emocionalmente frustrada. Tá estampado na minha cara, ninguém vê?
Um colega tira onda com o piloto vermelho do professor, dizendo pra trocar porque é daltônico e todo mundo ri. Mas todo mundo ali sabe que eu tenho necessidades educativas especiais e não atentam pra o quanto têm dificultado ainda mais minha participação em sala…. Será que de 35 estudantes de Psicologia (que estão, no mínimo, no 6° período), nenhum entenda e se sensibilize sobre o que é ter TDAH, TOC e AH/SD?
Desisti de assistir a aula. Já assinei a ata e agora minha carteira é o chão do corredor. Que ansiedade terrível está dentro de mim e percorrendo todo meu corpo!

Como estou me sentindo hoje? Excluída e frustrada. É nesses dias que me pego imaginando como seria ser “normal como todo mundo”.

OBS: Após escrever esse relato no meu tablet, o professor passou por perto de mim, lhe chamei e pedi para que o lesse. Caí em lágrimas e o silêncio dele de quem se sensibiliza foi um apoio muito importante. Mais importante que isso só o fato de ele ter se colocado a disposição para ajudar de alguma forma. Precisamos de mais professores que vão além do conteúdo e se preocupam em incluir de verdade. Obrigada, professor Rafael!

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