A luta de uma TDAH por uma universidade inclusiva

Comecei falando no post “Do dia que recebi meu laudo” sobre minha luta por oficializar meu diagnóstico e por acessibilidade dentro da universidade. O laudo foi o primeiro passo. Eu já tinha pesquisado na internet sobre as leis constitucionais que defendem meu direito de ter apoio educacional, mas não tinha a menor noção de como funcionava para recorrer a isso dentro da universidade. Estudo em uma universidade pública federal e sei que isso faz a burocracia ser 10 centavos maior, mas não desisti.

Comecei indo à reitoria, núcleo da instituição. “Bom dia, no que posso ajudar?“, disse o moço, com um mega sorriso. Respondi: “Boa tarde! Tenho um transtorno mental e preciso recorrer a apoio para acessibilidade na universidade. Quem procuro aqui?“. Imediatamente o semblante dele mudou, como quem tivesse sentindo que tivesse diante de uma descompensada, que a qualquer momento iria atacá-lo. O preconceito com a palavra transtorno mental é fortíssimo e senti isso nesse momento como um peso que jogaram nas minhas costas… Ele deu um passo para trás, disse que eu esperasse um momento e saiu. Voltou dizendo que fosse a outro órgão atrás da reitoria. A história foi similar e se repetiu várias vezes, até eu chegar no 4° lugar diferente na universidade, o Núcleo de Atenção À Saúde Estudantil (NASE). Lá marcaram uma triagem com uma assistente social, que perguntou meus dados sociodemográficos e quais eram minhas principais dificuldades. Disse que eu estava (mais uma vez) no lugar errado e que eu deveria ir ao Núcleo de Acessibilidade (NACE) da Universidade, que fica no segundo andar da biblioteca central. Nesse momento senti ao mesmo tempo uma pontada de esperança ao ver finalmente ascender as minhas buscas um núcleo que cuida da acessibilidade, mas também frustração. Nem a própria reitoria conhecia o Núcleo de Acessibilidade, que dirá os estudantes?

Fui ao NACE saber como funcionava. Era em uma sala super escondida, quase não achei, e estava fechado, pois era horário de almoço. Voltei outro dia e me deparei com uma sala cheia de equipamentos e com uma equipe super disponível a atender as demandas de acessibilidade. Me pediram que eu preenchesse um formulário de requerimento de acessibilidade, informando minhas principais dificuldades e anexando junto uma xerox do meu laudo(s), comprovando minha condição. Depois de preencher e entregar, foi marcada uma reunião de triagem com uma fonoaudióloga e um psicopedagogo, que queriam construir junto comigo estratégias para ajudar na condução das aulas. A ideia era de construir um documento oficial da universidade que seria enviado a todos os professores do meu curso e à coordenação para que as estratégias indicadas (sejam quais forem) fossem aplicadas para garantirem minha acessibilidade. Eles dois me viram lacrimejar de alegria ao ouvir isso. Finalmente uma luz, algo que me desse uma força! Tardia, visto que estou encerrando o 6° período (de 10) agora, mas vai ajudar a me manter no curso sem me desintegrar tanto… essa é a palavra certa, porque um pedaço meu foi ficando a cada atropelo, cada dificuldade que esbarrei no curso graças à minha condição.

O documento foi escrito, assinado pela coordenação do NACE, protocolado pela reitoria da universidade, entregue à coordenação e a todos os professores. Eu também tenho uma via, para caso eu precise “reforçar” as minhas necessidades diante algum professor mais “resistente” para entender. Essas são fotos de alguns trechos do documento:

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Receber esse documento, com todas essas sugestões, foi motivo de lágrimas cheias de alegria, ainda mais porque a coordenação disse que estava disponível para ampliar ainda mais ele, caso seja necessário. É aí que tá: muita gente acha que essas medidas são para explorar, ter vantagens… Na verdade tudo que é dado é porque nos falta, porque é necessário. E põe necessário nisso! Só quem passa pelo que a gente passa sabe o que eu tô dizendo. Como esse documento saiu bem na reta final do período, é previsto que as medidas sejam aplicadas com maior efetividade a partir do semestre que vem.

Após esse documento, vários professores e professoras vieram me procurar para me dar uma força, saber se podem ajudar em mais alguma coisa, e soube até que alguns passaram a ler algumas coisas aqui do blog, rsrsr… Uns professores começaram a entender a importância que (por exemplo) o barulho em sala e sentar longe de portas e janelas têm pro meu aprendizado e têm me ajudado nesse sentido. Reparo quando eles fazem algo e olham pra mim, discretamente, como quem quer mostrar que é por mim, sabe? Além disso, existem outros TDAHs no curso, que nunca tiveram coragem de correr atrás de acessibilidade por já estarem desestimulados demais… Conversei com alguns contando o que tá acontecendo comigo e isso os estimulou a ir atrás também. Isso tá sendo incrível! Meus sonhos podem inspirar sonhos em outras pessoas também.

Estou animada, prevendo que virão boas mudanças, mas iremos saber com maior clareza no próximo semestre. Só de ter recebido apoio, um documento oficial e de ter estimulado outros TDAHs a correrem atrás dos seus direitos, já me sinto com parte da missão cumprida.

É direito de toda pessoa ter acesso a educação, respeitando suas necessidades especiais, e isso nos inclui. Você, TDAH, tem direito a ser incluído e respeitado dentro da escola, da universidade, do trabalho e de onde mais necessitar. Não tenha medo ou vergonha de correr atrás dos seus direitos. Infelizmente o preconceito começa em nós mesmos, achando que essa é uma forma de obter benefícios… A acessibilidade serve para que todos tenham as mesmas condições de fazer o que quiser, e não para encher alguém de vantagens.

Busque informação sobre como funciona a acessibilidade na instituição que você, seu filho, sua filha ou quem mais você conhece que tem uma condição educativa especial. Lembre-se: o maior déficit é de informação! 

Aguardemos cenas dos próximos capítulos!

Uma TDAH.

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